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quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Marranos: o difícil caminho para casa

Marranos: o difícil caminho para casa

Fonte: http://comunidadeshemaisrael.blogspot.com/2006/08/marranos-o-difcil-caminho-para-casa.html











Jornal Haaretz – 24 de março de 2005 / 13 de Adar II 5765
http://www.haaretz.com/hasen/spages/556543.html

O longo caminho para casa
Kobi Ben-Simhon
Tradução; Uri Lam


Mais de 500 anos depois que seus antepassados foram forçados a se converter ao cristianismo, milhares de descendentes de marranos vivendo na América do Sul estão retornando às suas raízes judaicas. Mas eles estão colidindo com obstáculos no caminho de volta ao judaísmo.
Parece que eles ainda ouvem o riso corrente do Inquisidor. Dezenas de milhares de descendentes dos marranos — os judeus de Espanha e Portugal que foram forçados a se converter ao cristianismo há mais de 500 anos — continuam carregando a identidade perdida dos seus antepassados, apesar da passagem de séculos.
A Internet está cheia de fórums dos descendentes dos marranos, também chamados anussim, conversos forçados, em hebraico. Em um fórum chamado “Saudades” (www.saudades.org), mais de 1.000 pessoas estão comprometidas em um processo intensivo de esclarecer e cristalizar suas identidades. Eles escrevem sobre pronúncias hebraicas, judeus laureados com o Prêmio Nobel, preceitos da Torá, sábios do Talmud, o livro litúrgico de Jerusalém até mesmo sobre o prêmio de qualidade concedido ao azeite de oliva do Kibutz Revivim, no norte do Neguev, em uma competição mundial.
Um dos participantes do fórum se apresenta como “As 7 Leis de Noé”. Outro, Mordechai Lopes, de Recife, Brasil, escreve sobre observância do Shabat, e uma mulher contribui com um artigo publicado em um jornal americano local sobre descendentes de marranos que moram nos Estados Unidos, estimulando as pessoas a lê-lo. Anabela, da aldeia de Soago, em Portugal, escreve sobre um teste de DNA que ela fizera recentemente. Ela diz saber que é de descendência portuguesa e inquire algum outro participante do fórum que também fez o teste de DNA para conferir se há alguma compatibilidade com os resultados dela (o qual ela inclui na mensagem).
Além do Saudades, em inglês, há muitos sites que servem comunidades virtuais de marranos de língua espanhola — mexicanos, peruanos e colombianos. Também aqui, o centro do discurso repousa sobre a sua grande armadilha: o seu passado. Os descendentes dos marranos, que são formalmente cristãos em todos os aspectos, discutem questões como “quem é judeu” e como a história judaica os ignora. Eles falam sobre vários arquivos que documentam a Inquisição espanhola e as suas genealogias pessoais, cujas raízes se estendem por completo até aquele período de trevas na Espanha.
”Todos os sinais indicam que há um despertar de marranos em busca de suas raízes judaicas”, diz o Prof. Avi Gross, especialista em Judaísmo Português e Espanhol e Marranos do Departamento de História Judaica na Universidade Ben-Gurion em Beer-Sheva, no Neguev. Gross retornou mês passado de uma visita a comunidades marranas no Brasil como parte da sua atividade na associação Ezrá La’anussim (Auxílio aos Marranos), que entrou em operação este ano. Na tela do seu laptop há uma fotografia de uma família de marranos: o marido tirou uma foto da sua esposa e dois filhos acendendo as velas de Shabat.
”Está cada vez mais claro que as pessoas hoje em dia estão descobrindo o seu passado judeu”, destaca o Prof. Gross. “Isso está suficientemente claro para qualquer um que está engajado nas histórias de Brasil e Portugal. É um fenômeno muito extenso — milhares de marranos que queriam retornar à tradição dos seus antepassados, à vida dos seus ancestrais eram impedidos pelo fanatismo católico. O potencial para um retorno à religião judaica é de números que eu não estou disposto a citar, simplesmente porque não posso. As possibilidades são tremendas. Não estou interessado em citar números”.

Um sentimento pessoal e autêntico
Um novo estudo do Prof. Gross lida com a onda de despertar religioso entre os descendentes de marranos portugueses que imigraram para o Brasil. “O sangue judeu flui nas veias de uma enorme porção dos brasileiros cristãos de origem portuguesa”, ele diz. “O fato de haver vestígios de judaísmo em quantidades espantosas está claro; é uma questão estatística. Os historiadores dizem que 15% dos emigrantes portugueses que se instalaram no Brasil nos séculos 16 e 17 eram de descendência marrana — ou seja, judaica. Um cálculo aritmético simples lhe trará um número de sete dígitos (da ordem de milhões). Na minha opinião os números são muito menores. Estamos falando de um judaísmo inconsciente que estava totalmente assimilado. A maioria deles assimilou-se mil vezes desde então”.
Por outro lado, ele descreve uma conversa que teve em São Paulo com a Prof. Anita Novinsky, especialista mundial em Inquisição. “Ela nega a persistência do judaísmo entre os marranos, contudo admite, como ela me falou, que ‘o Brasil está fervendo com judaísmo debaixo da superfície’. Eu não esquecerei o que ela disse sobre um dos descendentes de marranos com quem eu me encontrei — que ele ‘leva história na sua carne e no seu sangue’. Do meu ponto de vista como historiador, esta é uma declaração definitiva. Afinal de contas, ela é altamente crítica da forma como a pesquisa histórica idealizou a preservação do judaísmo pelos marranos, e quando ela diz algo assim, aparentemente sabe do que está falando”. Há grandes concentrações de marranos (a palavra, usada pejorativamente contra os convertidos, significa “porcos” ou “amaldiçoados”) no Brasil, em particular no nordeste do país. São nestas regiões áridas, bem no interior do continente, que Gross encontrou extensas famílias que preservam um estilo judaico de vida, pelo menos até onde eles são capazes, dentro das fronteiras de quatro estados: Pernambuco, Ceará, Rio Grande do Norte e Paraíba.“Estas são famílias extensas e vastas, que permaneceram em laços de matrimônio e quase não se assimilaram com o meio ao redor”, diz Gross. “Eles viveram socialmente separados e nem sabem o porquê disso. É impressionante, mas preservaram uma forma marrana de vida no século 20. Eu conheci uma pessoa cuja família alcança 9.000 membros. Toda a vida deles é conduzida sob o que eles chamam de ‘leis de família’. É uma família enorme cujos membros estão associados pelo matrimônio. Eu não pude encontrar uma explicação do motivo pelo qual foram para um lugar tão remoto, na região árida, além do fato de que pretenderam se manter sem serem perturbados, seguir uma vida comunitária diferente, por meio de uma escolha consciente. Aqueles que foram em busca de dinheiro e melhores condições de vida foram mais para o sul. Não há qualquer razão para as pessoas irem tão longe em regiões desérticas como eles o fizeram”.
Os descendentes dos marranos estão longe de ser um bloco monolítico, diz o Prof Gross. Como a realidade marrana estava escondida até agora, tornou-se um assunto individual, de modo que há marranos mais sionistas e outros que são mais religiosos. Também há aqueles que se consideram sefaradim [de Sefarad, Espanha] puros; então decidiram seguir os passos de Maimônides e expressar uma forte oposição ao misticismo e à cabala. Em geral, todos se sentem judeus, mesmo que estejam totalmente alheios a este modo de vida.
“Eles não se encontram muito, principalmente devido às longas distâncias. Esta é uma comunidade imaginária” diz o Prof. Gross. “Uma comunidade onde todos choram juntos na Internet. É junto, nas dificuldades comuns, na sua dor compartilhada, que eles encontram acolhimento. São pessoas religiosas, com sentimentos religiosos, que são incapazes de se encontrar dentro da estrutura cristã. Em alguns casos o retorno para o judaísmo começa com a rejeição da Igreja — os jovens não estão dispostos a aceitar o dogma católico. Eles chegaram a este lugar por suas próprias pesquisas. Não é um fenômeno coletivo nem é uma questão de moda. É um sentimento muito pessoal e autêntico”.

A raiz do malO fenômeno marrano surgiu na Espanha e Portugal após vários períodos separados de conversão. O primeiro aconteceu no verão de 1391, em Sevilha, como parte de uma relativa onda de revoltas anti-semitas que varreram o país. Foram assassinados milhares de judeus naquele verão, e cerca um terço dos judeus — aproximadamente 100 mil, de acordo com uma estimativa — foi forçado ao batismo cristão. Houve outras ações de conversão forçada, com outra acontecendo em 1492 durante a expulsão dos judeus da Espanha, quando eles tiveram a escolha de se tornar cristãos ou deixar o país. Novamente o número de convertidos foi da ordem dos milhares. Naquela época estava em operação a maquinaria bem azeitada da Inquisição, perseguindo sistematicamente os marranos na Espanha, com o objetivo de interrogar aqueles entre os “cristãos novos” que continuavam a observar o judaísmo em segredo e castigar impiedosamente os impostores.
Em 1497 a comunidade judaica em Portugal também foi obrigada a se converter ao cristianismo. Um édito real ordenou que todos os judeus viessem para Lisboa, onde foram forçados a se converter. Ali também as estimativas falam de 10 mil a 20 mil convertidos. Em 1540 a Inquisição foi estabelecida em Portugal, e a versão portuguesa foi considerada mais brutal do que na vizinha Espanha. Rolos de pergaminho em hebraico que estavam escondidos em cavernas e depois encontrados, e milhares de arquivos de interrogatórios que documentam as acusações de observar as leis mosaicas em segredo mostram que os marranos mantiveram algum modo de vida judaico em segredo por muitos anos.Após a expulsão dos judeus da Espanha e a conversão generalizada em Portugal, a maioria dos marranos foi excluída do mundo judaico. Uma situação paradoxal emergiu, na qual a Igreja foi bem-sucedida transformando os judeus em “cristãos novos”, mas a sociedade cristã os rejeitou. A entrada dos cristãos novos no sistema social foi percebida como uma ameaça pelos antigos judeus, certamente na primeira geração. Por volta do século 16 uma visão ganhou força na Espanha e Portugal: de que havia um teimoso foco de heresia entre os judeus que eram cristãos por fora, mas permaneciam judeus em seus lares. Esta perspectiva foi manifestada na forma das leis de “pureza de sangue”, que não foram necessariamente promulgadas pelo estado, mas foram adotadas em várias regiões por meio de certas instituições, como universidades e monastérios, para excluir qualquer um que tivesse ascendência judaica.
A fonte do mal nestas leis repousa em sua atemporalidade. Assim que o passado judaico dos cristãos novos era descoberto, até mesmo 200 anos depois, era destruída toda a sua infra-estrutura social e econômica e eles podiam esperar serem perseguidos e suspeitos de observar o judaísmo. A fim de escapar de uma vida de temor insuportável, eles fugiram para os países islâmicos, para Amsterdã e para as colônias espanholas e portuguesas nas Américas.
Como seria de esperar, com o passar do tempo ocorreu uma erosão gradual no modo de vida judaico dos marranos. Dentro de duas ou três gerações, a maioria deles foi assimilada na sociedade cristã, e a religião judaica entre eles foi banida para os porões e lugares não vistos — para uma tradição oral. Após centenas de anos, permaneceram apenas sinais vagos de uma herança judaica.

Nascer e morrer como judeusNo Shabat, ele conta que leva seus filhos à beira do lago. Em pé em uma larga ponte de madeira, eles observam juntos o céu em busca das três estrelas que indicam o final do Shabat. Fábio (Ariel) Fonseca, 32 anos, porta-voz da Polícia Federal no Estado de Alagoas, Brasil, soube desde muito jovem que era judeu. “À idade de 15 anos comecei a ler sobre judaísmo”, ele diz em uma entrevista realizada por e-mail. “A primeira vez que encontrei o fato de que minha família tinha um passado judeu me pareceu uma total tolice. Eu pensava que os judeus vinham de Israel”. Ele abandonou a igreja aos 20 anos. “Era difícil estar fora. Depois que eu me casei, minha mãe me ajudou a encontrar os parentes e conversar com eles”. A sua trilha no mundo judaico foi forjada pela irmã do seu avô; continuou na Internet e o conduziu a uma escola na cidade litorânea de Natal, onde os descendentes dos marranos aprendem sobre judaísmo. Fonseca agora se apresenta como judeu — no verão passado ele passou pela circuncisão. Está aprendendo hebraico a partir de poemas que um amigo israelense lhe envia e lê o Jerusalem Post e a edição em inglês do jornal Haaretz diariamente na Internet. Seus dois filhos beijam a mezuzá anexada à porta da casa deles e recitam a oração de Shemá.
Dr. Luciano Oliveira, 27 anos, um médico de família no Estado da Paraíba, tem planos maiores. Ele pretende estabelecer uma comunidade de marranos no Brasil, como o modelo da famosa comunidade de marranos de Belmonte, Portugal, onde os conversos forçados conseguiram preservar a observância religiosa judaica em segredo do tempo da Inquisição até os anos 1970, e preparam pessoas para realizar as tarefas religiosas na comunidade. Ele já aprendeu o ritual da Sociedade Chevra Kadisha de São Paulo. “Em todas as gerações de minha família”, ele escreve por e-mail, “as mulheres preservaram os costumes e transmitiram a tradição. Por exemplo, a tradição do enterro — minha mãe era a responsável na família por purificar o morto e pelo enterro”. Dr. Oliveira se vê como um emissário público com grande responsabilidade. Mas quanto mais ele tenta solucionar o intrincado problema da sociedade de marranos em seu redor, mais chateado fica. Apesar dos seus tremendos esforços para voltar à superfície do judaísmo, sente que as instituições judaicas rejeitam a sua sinceridade. “O rabinato está sendo bem sucedido hoje em fazer conosco o que a Inquisição não conseguiu em centenas de anos. Eu não estou disposto a voltar para o judaísmo como um convertido”, ele diz, com frustração. “Eu não posso fazer isso com a minha família; isso seria traí-los. Oficialmente eu ainda sou um católico, mas as leis de família são o que decide. Minha mãe diz, ‘eu nasci nestes direitos de família e morrerei neles’”.
A amarga ironia é que declarações com este espírito podem ser encontradas nos arquivos da Inquisição; quando os marranos eram surpreendidos observando costumes judaicos, declaravam desafiadoramente, antes de serem assassinados, que “nasceram e morrerão no judaísmo”.

A barreira ortodoxa
Famílias como os Fonsecas e os Oliveiras são apanhadas em um processo cruel que é o caso de muitas famílias de marranos conscientes do seu passado judaico. A jornada dos marranos de volta para o judaísmo colide com a falta de sensibilidade das instituições religiosas, embora os marranos tenham sofrido um profundo processo de autodescoberta. Em geral, as instituições religiosas judaicas ortodoxas em Israel e no exterior vêem os descendentes dos marranos como gentios e exigem que eles passem por uma conversão plena. Por sua vez, os marranos dizem que querem retornar ao judaísmo sob o status de pessoas que estão “retornando à religião dos seus antepassados”, e não como convertidos.
Do ponto de vista deles, a diferença é crítica. Só uns muito poucos tribunais religiosos na América do Sul poderiam restabelecer os marranos ao judaísmo desta forma, mas mesmo que um tribunal ortodoxo no Brasil o fizesse, não há garantias de que a sua decisão seria respeitada em Israel, e menos ainda se um tribunal do judaísmo reformista estiver envolvido. Sisa Shlomovitz, 33 anos, entendeu isto e imaginou que encontraria uma resposta em Israel. Há quatro anos ela imigrou para Israel com seu marido judeu, Asher Ben Shlomo, que estabeleceu a Federação de Marranos Israelenses. “Nós percebemos que não havia sentido em passar por qualquer conversão ou processo de retorno no exterior, porque simplesmente não seria respeitado em Israel”, diz Ben Shlomo. “Quando chegamos em Israel, minha esposa teve que passar por um processo de conversão. Mas até hoje eu não encontrei um tribunal disposto a restabelecê-la para o judaísmo e cujas decisões serão respeitadas. Hoje ela não é considerada judia de acordo com lei. A verdade é que ela não tem nem sequer a sua cidadania concedida — ela ainda está passando pelos procedimentos, mesmo eu sendo judeu”. Shlomovitz soube da sua condição judaica pela primeira vez aos 20 anos, por sua mãe. Sua extensa família consiste de 1.000 pessoas, a maioria residentes no Estado de Alagoas, no Brasil. “Geralmente em minha família esta informação era escondida dos filhos, e eles só nos falavam sobre o nosso passado judeu mais tarde”, ela diz. “A ditadura militar no Brasil estava em liga com a Igreja católica, e isso nos causou medo. Mas inclusive antes de me dar conta do meu passado judeu, eu já observava costumes judaicos como aguardar por três horas entre comer carne e derivados de leite, a proibição em comer ovos manchados de sangue e a tradição do matrimônio dentro da família. Minha família ainda observa esses costumes”.
“Nós estamos em uma situação em que os cristãos nos consideram judeus e os judeus nos consideram gentios”, ela resume. “Hoje minha família tem o desejo de se definir como judia, mas não dão este passo porque sabem que em Israel o retorno ao judaísmo não é reconhecido. Em Israel nem eu nem meus filhos são considerados judeus. Deve-se encontrar uma solução para nós, porque não pretendemos passar pela conversão sob hipótese alguma. Há alguns que querem nos humilhar muito durante o processo de conversão”.
O rabinato em Israel não adotou uma abordagem uniforme para os marranos. Não há uma coordenação entre os tribunais religiosos sobre o tema. Uma resposta haláchica escrita em 1995 por um ex-rabino chefe, Mordechai Eliahu (Após concluir o seu período como rabino chefe), demonstra o absurdo envolvido. De acordo com esta decisão, os marranos não têm que sofrer um processo de conversão, mas sim um retorno ao judaísmo.
“Aqueles que desejam cumprir todos os preceitos do Torá abertamente hoje em dia deveriam ser louvados”, escreveu o rabino Eliahu. “Depois de sofrer todos os processos de estudo da Torá, aceitando a Torá e a obrigatoriedade dos preceitos, circuncisão e imersão conforme estipulados na Lei, eles deveriam receber um certificado intitulado, ‘Certificado para aquele que retorna aos caminhos dos seus antepassados’”. Halachicamente, esta decisão põe os marranos no mesmo processo rígido sofrido por um convertido, mas apesar disso, as cortes rabínicas em Israel não cumprem esta decisão.
Em Tu Bishvat (Dia da Árvore) este ano, um dia chuvoso em Jerusalém, um grupo de pessoas decidiu colocar um fim a esta situação humilhante. A associação Ezrá La’anussim foi estabelecida com a meta de tornar possível aos marranos retornar ao judaísmo e superar o obstáculo haláchico imposto pelo rabinato. Os membros da organização incluem o Prof. Gross; o advogado Aryeh Barnea, ex-diretor do colégio Gymnasia Herzliya em Tel Aviv, consultor jurídico da associação; e o rabino Zalman Cohen. A presidente da associação é Yafa da Costa, uma residente da cidade de Maalê Adumim, na Cisjordânia, ela mesma de uma família de marranos.
Yafa da Costa cresceu em uma cidade perto de Boston, Massachusetts, EUA, e comparecia à igreja todos os domingos. “Fazíamos o que tínhamos que fazer para nos ajustar ao status quo”, ela diz sobre a sua família. “Aos 19 anos senti que aquilo não era para mim, um sentimento interno que me é difícil de explicar. O passado judeu foi esquecido em algumas partes da família — minha mãe, por exemplo, nada sabe sobre isso”.
Da Costa encontrou suas raízes judaicas em Israel, ao acompanhar uma conversa casual em que alguém por acaso sugeriu a ela para que pesquisasse se o seu passado português terminaria em um lar judeu em Portugal. Depois disso, as coisas se moveram rapidamente. “Comecei a investigar e entendi, como acontece com muitos marranos, que muitos dos costumes que seguimos em casa eram costumes realmente judaicos. Havia também costumes que não cumpríamos, mas que minha mãe me disse que eram cumpridos na casa dela. No fim, levei adiante o meu processo de retorno ao judaísmo em Nova Iork, em uma corte altamente reconhecida e renomada, de modo que o Ministério do Interior no Israel aceitou a minha condição judaica”.
Neste sentido, o caso de Yafa da Costa é um precedente, e ela está agora tentando estendê-lo aos demais marranos. “Minha missão em vida é ajudar as famílias de marranos”, ela diz. “Eu comecei nos Estados Unidos há cinco anos e estou continuando aqui em Israel pela associação. É importante, para mim, deixar claro que somos judeus legítimos. Não podemos deixar a Inquisição vencer. Os marranos têm esperado há anos que as portas sejam abertas para eles; estão esperando por justiça histórica. A associação começou a direcionar os marranos a tribunais no exterior que trabalham conosco, e assim solucionar a identidade judaica deles. Quem passa pelo processo pode decidir depois o que ele quer fazer — permanecer na sua comunidade ou imigrar para Israel”. “Eu penso que temos a obrigação de aproximar os descendentes de marranos de nós e nos aproximarmos deles”, diz Aryeh Barnea em um determinado tom. “Esta é uma questão humanitária. Nós temos que entender que isto significa o mundo inteiro para estas pessoas — conectarem-se com suas raízes judaicas. A questão aqui é que o establishment israelense não está ciente de que os descendentes dos marranos são judeus e temos que encontrar um modo de trazê-los de volta para o seio do judaísmo e de Israel. Temos que lhes ajudar a voltar. A estimativa é que centenas de milhares poderiam retornar, e como eu vejo, esta é uma questão demográfica que constitui uma contribuição significante à sociedade israelense. Do meu ponto de vista, um passo nesta direção é definitivamente a realização do Sionismo”.
Houve tentativas no passado de assistir comunidades marranas, contudo somente em baixa escala. Uma organização chamada Amishav tem sido ativa nos últimos anos em centros urbanos na Espanha e em Portugal, em um esforço para restabelecer os descendentes dos marranos para o meio judaico (esta organização, fundada pelo rabino Eliyahu Avichail, também atua para encontrar os descendentes das 10 tribos perdidas). A associação Ezrá La’anussim tem a expectativa de uma mudança genuína de atitude, que tenderia ao histórico. “Nossa meta primária é encontrar tribunais de conversão com autoridade ortodoxa”, explica o Prof. Gross. “Quando estas ordens judiciais legislarem em favor do direito de um marrano retornar aos caminhos dos seus antepassados, ninguém será capaz de discutir isso”.
O rabino Zalman Cohen, conselheiro haláchico da associação, já começou a contatar cortes rabínicas no exterior. “O problema era que aqueles que lidavam com o tema dos marranos até agora raramente eram juízes de tribunais religiosos, e eles não tinham o conhecimento necessário do assunto”, ele diz depois de concluir uma aula de Torá na sua casa, por volta da meia-noite. “Nós estabelecemos contato com rabinos do primeiro nível que poderão solucionar o problema. Quando um marrano entra no tribunal, estes rabinos iniciam uma averiguação para assegurar que a pessoa preservou uma identidade judaica. Os rabinos com quem começamos a trabalhar estão autorizados a fazer isso”.

Você poderia explicar?
“Explicar exatamente o que eles estão fazendo é como tentar explicar como funciona a bomba atômica a alguém que não tem conhecimento de física. O que é importante é que, após a audiência, o marrano parte com um certificado declarando que é judeu e ninguém no mundo ousará duvidar da sua condição judaica”.
O que está acontecendo agora é só o início. O número de marranos que se beneficiou do sistema descrito pelo rabino Cohen é desprezível se comparado com o potencial. Ele não hesita em atacar as conversões feitas em Israel. “Em Israel nós temos o que é conhecido como conversão por atacado, conversão solta, portanto há muita gente que tende a desconfiar do processo de conversão feito lá”, diz Cohen. “As forças políticas de direita assumiram os processos de conversão aqui, e este é o resultado. Eles querem mão de obra barata para os assentamentos — esta é a abordagem, lamentavelmente. Três semanas atrás chegou um casal de marranos que pensava ter descoberto um caminho à margem do dilema em Israel, mas o problema com que eles se depararam é que não há uma instituição que possa levá-los de volta ao judaísmo. Estas são pessoas que preservaram a sua identidade judaica com abnegada devoção, e são tratados como se fossem gentios. Isto é um tapa na cara deles. É o bastante para fazer alguém chorar”.
O Chefe do Rabinato declara em resposta: “O rabino Shlomo Amar encontrou-se recentemente com representantes de descendentes de convertidos forçados de Portugal interessados em retornar ao judaísmo. Com o objetivo de facilitar o processo do retorno dos descendentes dos anussim ao seio do povo judeu, o assunto será examinado a fundo, devido ao temor de assimilação entre os descendentes dos anussim. O rabino chefe enviou dois representantes para submeter um relatório conclusivo em breve”.
Enquanto isso, a associação Ezrá La’anussim passou a operar um site educacional para os marranos na Internet. Miguel Staroi, um residente do assentamento de Mitspê Yerichó, na Cisjordânia, leciona para um grupo de 40 estudantes da Colômbia duas vezes por semana. “Eu lhes dou lições de lei religiosa judaica”, ele conta. “O assunto que eles estão estudando agora diz respeito às leis de purificação na família. É uma aula virtual na qual eles escutam, assistem e podem fazer perguntas. Quase todos têm formação universitária, quase todos têm mestrado. É muito emocionante para mim trabalhar com eles”. Prof. Gross admite, “Se eu não tivesse pensado em termos de grandes números, imagino que não teria me envolvido no assunto. Após a minha reunião com vários marranos no Brasil, e horas infinitas de correspondência via Internet, sinto que alguns deles estão se apoiando em mim como a uma âncora. Eu senti a sua necessidade de alguém os arrancar do redemoinho. Tento separar os vários elementos emocionais, mas não há dúvida de que sinto um senso de pertencer ao nível humano, nacional e religioso com estas pessoas. Se eu for bem-sucedido nesta missão em que nos colocamos com esta associação, serei capaz de dizer que esta é a coisa mais maravilhosa que eu fiz na minha vida”.

http://www.geocities.com/brasilsefarad/marrano3.htm

Brasil Marrano: as pesquisas recentes

Brasil marrano: as pesquisas recentes[*]
Os estudos sobre o marranismo tem despertado grande interesse. No Laboratório de Estudos sobre Intolerância–LEI da Universidade de São Paulo, as pesquisas sobre Inquisição, cristãos-novos (marranos) e criptojudaismo no período colonial, dirigidas pela professora Novinsky, mapeiam o Brasil, apresentando um quadro do fenômeno que perdurou quase trezentos anos, marcando a mentalidade brasileira. Com pouquíssimas exceções, os pesquisadores aos quais vou me referir no decorrer deste texto são todos pesquisadores do LEI, orientados pela professora Anita Novinsky.
Nos primeiros séculos da colonização, os cristãos-novos estabeleceram-se principalmente no Nordeste do Brasil, especialmente na Bahia e em Pernambuco.
Nesse período, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa enviou para a região duas Visitações (em 1591-95 e em 1618)[1], além da presença constante de funcionários da Inquisição, comissários e familiares, que vigiavam, prendiam e enviavam esses cristãos-novos para Lisboa, onde eram julgados como hereges judaizantes.
Para saber quem eram esses cristãos-novos, as principais fontes são os documentos manuscritos do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição e os processos de habilitação de genere.[2] Ambos são também fundamentais para o estudo da “pureza de sangue” e um dos instrumentos para se conhecer a origem das famílias. Os Estatutos de Pureza de Sangue[3], legislação de origem econômica, racista, estabeleceu que os conversos, antigos judeus, (chamados cristãos-novos em Portugal) não eram iguais aos cristãos-velhos uma vez que o Judaísmo era transmitido pelo sangue; esses Estatutos foram adotados pela Espanha e Portugal e em todo o império ultramarino.
Desde o início do século XVII os inquisidores iniciaram a composição de um Livro que contivesse o registro dos nomes de todos os portugueses suspeitos de qualquer culpa contra a fé e os costumes. Essa listagem continuou até a segunda metade do século XVIII. Os nomes dos cristãos-novos naturais do Brasil ou aqui moradores no século XVIII já se encontram publicados em livro – Rol dos Culpados[4]. Encontramos ali não somente os presos, mas também aqueles denunciados como cristãos-novos. A relação mais completa compilada até agora dos moradores do Brasil, e dos naturais do Brasil presos pela Inquisição foi publicada recentemente por Anita Novinsky[5] no livro Inquisição: prisioneiros do Brasil (séc.XVI- XIX).
No século XVI, de duzentos e vinte e três (223) prisioneiros, quarenta e nove (49) eram cristãos-novos; no século XVII, do total de oitenta e sete (87) presos, cinqüenta e nove (59) eram cristãos-novos. No século XVIII foram presos seiscentos e sessenta e três (663) brasileiros, sendo quatrocentos e oitenta e quatro (484) cristãos-novos, acusados de heresia judaizante[6], o que demonstra claramente o maior interesse do Santo Ofício pelos marranos do que por aqueles acusados de outros crimes.
O crime de que eram acusados significava que, segundo os Inquisidores, após a conversão e o batismo, os cristãos-novos continuavam a professar a antiga fé em segredo. Era considerado crime, por exemplo, não trabalhar aos sábados, não comer carne de porco, peixe de escamas, mariscos, lebre, rezar as orações católicas sem dizer Jesus no fim, enterrar os mortos em terra virgem e covas rasas e muitas outras práticas. Entre as celebrações mais comuns estava o jejum do Dia Grande (o Yom Kipur) do mês de setembro, o jejum da rainha Esther, a Páscoa Judaica (Pessach). A crença em um Deus único, a idéia da salvação pela crença na Lei de Moises, a espera pelo Messias e a rejeição a imagens (feitas de pau e pedra), à idolatria e à alguns dos dogmas cristãos (como a virgindade de Maria e o Espírito Santo) estavam presentes entre os cristãos-novos.
Todo cristão-novo confessava haver durante um certo tempo ter tido crença na Lei de Moises para nela salvar sua alma. E, por observância da dita Lei, praticara determinadas cerimônias e se comunicara com correligionários na dita Lei.
A confissão era necessária para salvar a vida – o processo inquisitorial assim o exigia. Porém, é certo que, embora nem todos os cristãos-novos fossem criptojudeus, todos conheciam o criptojudaismo e todos tinham uma memória do Judaísmo.
Os cristãos-novos da Bahia e Pernambuco no século XVI e início do XVII tem sido estudada por alguns historiadores[7]. O Doutorado recente de Ângelo de Assis[8] - orientando de Ronaldo Vainfas - sobre a família de Heitor Antunes e Ana Rodrigues, senhores de engenho em Matoim, na Bahia, trouxe contribuição significativa para o tema do criptojudaísmo. A família Antunes mantinha em seu engenho, ao lado da capela, uma snoga; diziam-se descendentes dos Macabeus bíblicos. Mantinham vários costumes judaicos, como abençoar os filhos passando a mão pelo rosto, da cabeça ao pescoço, rezar orações judaicas movimentando o corpo à maneira dos judeus, mostrar repulsa a símbolos cristãos, como o crucifixo entre tantos outros. O patriarca já havia falecido quando o Visitador chegou à Bahia, mas a matriarca e suas filhas foram presas e enviadas para Lisboa, onde Ana, uma anciã com mais de 90 anos, faleceu nos cárceres.
Contemporâneo da família Antunes foi o poeta Bento Teixeira, autor do primeiro poema épico brasileiro, Prosopopéia[9], que viveu na Bahia e em Pernambuco no final do século XVI, tema de estudo de Eneida Ribeiro. Conhecedor do Antigo Testamento, quando menino foi ensinado no Judaísmo pela mãe. Chegou a querer se circuncidar, no que foi impedido pelo pai. Freqüentava a esnoga, onde discutiam o Judaísmo, o papel das mulheres na religião, e discussão de dogmas da Igreja, como a Santíssima Trindade e a virgindade de Maria.
A Bahia do século XVII foi o tema de Anita Novinsky, com sua obra clássica Cristãos-novos na Bahia, onde apresenta o conceito fundamental para a compreensão do fenômeno do cristão-novo: o “homem dividido”, dividido entre o mundo católico e o judaico[10], conceito que vários autores tem adotado como Yovel, Morin, Abensur e tantos outros filósofos[11] .
Daniela Levy[12] desenvolve pesquisa para o Mestrado sobre ass vicissitudes dos judeus na América holandesa do século XVII., A história de um povo em busca de uma terra, as dificuldades enfrentadas em uma época de profundo anti-semitismo , onde a Inquisição deixava aos judeus poucas opções de moradia entremeiam a reconstrução dessa história. Vivendo em um período de “relativa” tolerância no nordeste brasileiro ocupado por holandeses, os judeus tiveram que novamente partir, após a retomada do território pelos portugueses. Um dos navios que saíram do Recife, com 23 judeus chegou a colônia holandesa na América do Norte de Nova Amsterdã, atual Nova York, esse grupo foi responsável pela fundação da primeira colônia judaica na maior cidade da primeira nação realmente democrática do mundo.
Para o século XVIII, estudos recentes indicam que os cristãos-novos representavam no mínimo cerca de 10% da população livre do período no Nordeste. Em Pernambuco, após a expulsão dos holandeses[13], a ação inquisitorial não foi intensa (o Tribunal do Santo Ofício viveu na segunda metade do século XVII um período de retração).
Muitos cristãos-novos haviam saído de Recife e Olinda e seus arredores e se estabelecido na Paraíba, região pertencente ao bispado de Pernambuco, onde o Santo Ofício agiu com mais rigor no século XVIII. No século XVII os cristãos-novos da Paraíba desfrutavam de uma posição social elevada, mas com a crise da economia açucareira entraram em declínio. No século XVIII ocorreu uma diversificação das atividades produtivas: 37% eram lavradores – cerca de metade cultivando a cana de açúcar e os outros dedicados ao plantio do tabaco, da mandioca e gêneros de subsistência. Outros se dedicaram à criação de gado, foram homens de negócios, militares, artesãos e alguns letrados. O que os caracteriza é que muitos tinham duas ou mais atividades diferentes.
No século XVII os cristãos-novos da Paraíba desfrutavam de uma posição social elevada, mas com a crise da economia açucareira entraram em declínio. No século XVIII ocorreu uma diversificação das atividades produtivas: 37% eram lavradores – cerca de metade cultivando a cana de açúcar e os outros dedicados ao plantio do tabaco, da mandioca e gêneros de subsistência. Outros se dedicaram à criação de gado, foram homens de negócios, militares, artesãos e alguns letrados. O que os caracteriza é que muitos tinham duas ou mais atividades diferentes. Como a lavoura e a pesca, a lavoura e o comércio, o comércio e a criação de gado. Houve a tendência de deslocamento do litoral para o sertão desde o início do século XVIII, o que não impediu que na década de 1730 se iniciassem as prisões desses cristãos-novos.
Segundo Fernanda Lustosa, que estudou a região, o criptojudaísmo encontrado na comunidade marrana da Paraíba era forte, com o ensino da Lei de Moisés presente na maioria das famílias. Algumas cerimônias, como o jejum do “Dia Grande”, o respeito ao Shabbat (guardar os sábados como se fossem dias santos), vestindo neles roupa limpa, a manutenção das regras dietéticas casher, não comendo carne de porco, coelho, lebre, peixe sem escamas e alimentos com sangue. Rezavam os salmos de David e o Padre Nosso sem dizer Jesus no fim. Era um grupo crítico em relação ao Catolicismo, considerando Jesus um feiticeiro e desprezando o culto de imagens, consideradas apenas como “pão e barro cozido”; duvidavam da virgindade de Maria e negavam a adoração da hóstia.[14] Bruno Feitler[15] compartilha com Lustosa a confirmação do criptojudaismo da Paraíba, em Doutoramento defendido em Paris.
Após denúncia feita à Inquisição em 1726, cinqüenta pessoas foram presas na Paraíba e enviadas para julgamento em Lisboa. Duas delas receberam a pena de morte, oito morreram nos cárceres do Santo Ofício e a maior parte nunca voltou para a Paraíba.
Na Bahia, a comunidade cristã-nova continuou a atividade mercantil que marcou o século XVII, embora houvesse também senhores de engenho, lavradores, médicos, advogados e pequenos artesãos. No século XVII, cerca de 31% eram mercadores, 20% lavradores e o restante principalmente artesãos[16]. Para o século XVIII, Suzana Santos encontrou uma proporção de mercadores maior: temos 64% dedicados ao comércio e 13% ao trabalho agrícola (5% à mineração)[17]. Nessa época, também predominaram as atividades comerciais. Um dos motivos desse aumento no número de mercadores é que na Bahia, muitos cristãos-novos haviam chegado à região no século XVIII, estando ali estabelecidos há pouco tempo quando o Tribunal do Santo Ofício investiu contra eles.
É na Bahia encontramos um dos mais interessantes cristãos-novos: Antonio Cardoso Porto, cristão-novo português que havia vivido na França – na comunidade judaica de Bordeaux - chegou à Bahia no início do século XVIII. Homem de negócios estabeleceu-se na cidade do Salvador. Conhecia e praticava o Judaísmo – e não o criptojudaísmo encontrado entre os cristãos-novos nascidos no Brasil. Ensinou sua esposa Angela de Mesquita hábitos de higiene como o banho mensal na mikve[18], conhecia as datas corretas das celebrações religiosas, sabia hebraico, dizia orações - nos anos em que ficara em Bordeaux, tornara-se judeu.
Era amigo de Miguel de Mendonça Valladolid[19], outro cristão-novo retornado ao Judaísmo (que na Bahia voltou – ao menos formalmente - ao Cristianismo, tendo se re-batizado). Espanhol, vivera na Holanda e França. Chegou à Bahia no mesmo período que Antonio Cardoso Porto, e os dois podem ser considerado como heresiarcas (aqueles que ensinavam o Judaísmo aos outros cristãos-novos)
Viajando da Bahia para as Minas, fixando-se em São Paulo, Miguel Valladolid confessou ser prosélito do Judaísmo, tentando passar aos cristãos-novos – já pouco conhecedores do Judaísmo, um pouco das tradições de seus antepassados. Apesar de ter confessado suas culpas e delas ter se arrependido, foi condenado à morte.
Em São Paulo, que até meados do século XVIII era uma região bastante pobre, somente três pessoas foram presas e condenadas pelo Santo Ofício no final do século XVII, apesar de a população cristã-nova ser bastante numerosa, tendo raízes no século XVI, como demonstram as pesquisas de Marcelo Amaral Bogaciovas. Dois eram irmãos, filhos de um banqueiro português, que vieram para São Paulo para fugir do Santo Ofício. Um deles, Teotonio da Costa, foi relaxado ao braço secular[20].
Desde o século XVII encontramos cristãos-novos entre os desbravadores e formadores do território nacional. Antonio Raposo Tavares, organizador da primeira expedição de reconhecimento geográfico que abrangeu todo o espaço continental da América do Sul, era de família cristã-nova de Beja[21], e após a morte de sua mãe, cristã-nova, foi criado por uma prima desta que tornou-se sua madrasta. Enquanto Raposo Tavares estava nas minas, sua madrasta era torturada nos cárceres inquisitoriais.
Nas Minas Gerais[22], atraídos pelas oportunidades do ouro, cristãos-novos vieram de outras regiões do Brasil, especialmente Bahia e Rio de Janeiro. Porém, a maioria veio de Portugal. Nas minas se estabeleceram em Vila Rica, Mariana, Serro Frio, Cachoeiro e região do rio das Mortes. Mantinham roças de mandioca, eram mineiros, negociavam ouro e pedras preciosas, havia alguns profissionais liberais, como médicos, mas principalmente, dedicaram-se ao comércio, trazendo para a região gêneros essenciais para a subsistência.
Negociantes cristãos-novos da Bahia e do Rio de Janeiro enviavam “carregações” para as Minas. Alguns ali mantinham residência, deixando na cidade de origem suas famílias, indo e vindo entre a região e o litoral. Levavam para lá vestimentas como chapéus, camisas, calções de pano de algodão; comerciavam panos de linho, aguardente, sal, açúcar, queijos, peixe seco, cavalos e gado e escravos[23].
Dos presos nas Minas nas décadas de 1730/40, a maioria era de imigrantes recentes, tendo chegado de Portugal no século XVIII. Foi a região que forneceu mais cristãos-novos às fogueiras da Inquisição: seis foram relaxados à justiça secular. Todos eram naturais de Portugal. Diogo Correa do Vale era médico, graduado pela Universidade de Coimbra. Fugindo da perseguição do Santo Ofício, veio para o Brasil com o filho Luis, estabelecendo-se em Vila Rica. Em 1730, os dois foram presos pela Inquisição. As acusações de Judaísmo referiam-se à época em viviam em Portugal, isto é, vinte anos antes de serem presos, quando Luiz era criança. Apesar de manter sua inocência, foram condenados à morte. Insistiram que havia sempre vivido sob as leis cristãs e que nelas queriam morrer, mas sua origem judaica selou seus destinos[24]
Segundo Anita Novinsky, as práticas judaicas em Minas Gerais eram imbuídas de simbolismo e as comunicações secretas se davam freqüentemente através de códigos. As observâncias concentravam-se principalmente no jejum de Yom Kipur, a guarda do Shabbath, a celebração do Pessach e a festa em honra da rainha Esther, além de algumas das restrições dietéticas.
Foi também a procura e a posterior descoberta do ouro que levou cristãos-novos a se estabelecerem em Goiás, objeto de estudo do padre Adalberto Gonçalves. Entre os cinco presos da região, estava o cristão-novo Antonio Ferreira Dourado[25] dono de vasta cultura, biblioteca e autor de um poema épico, a primeira obra literária escrita em Goiás – América, que, confiscada pelos inquisidores, até hoje desaparecida. Preso em 1761 – um dos últimos cristãos-novos presos pela Inquisição no Brasil – denunciado por criptojudaísmo, foi condenado a cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos Inquisidores.
Foi no Rio de Janeiro que o Santo Ofício atingiu com maior força a comunidade cristã-nova, onde estava estabelecida desde o final do século XVI. Junto com Carlos Eduardo Calaça, que estudou os letrados fluminenses[26], os marranos do Rio de Janeiro são o tema principal de meus estudos.
A importância dessa comunidade era tão marcante que um viajante francês, François Froger, que esteve na cidade em 1695, considerou que três quartos da população branca da cidade era de origem judaica[27]. Representavam aproximadamente 24% da população livre da região no início do século XVIII.[28] Desses, o Tribunal do Santo Ofício prendeu e condenou trezentos e vinte e cinco pessoas acusados do crime de heresia judaizante, sendo cento e sessenta e sete mulheres[29].
Parte dessa comunidade marrana morava na cidade, exercendo atividades urbanas. Havia os homens de negócios, mercadores, profissionais liberais como médicos e advogados, artesãos, um mestre-escola, militares, caixeiros, alfaiates, dois músicos, dois carpinteiros e sete padres[30]. Mais da metade dos cristãos-novos do Rio de Janeiro estavam ligados à atividade agrícola, principalmente ao cultivo da cana de açúcar e ao fabrico do açúcar como senhores de engenho, donos de partido de cana e suas famílias. Muitos desses senhores ou partidistas tinham outras atividades, eram ao mesmo tempo médicos, advogados ou homens de negócios, mantendo residência nos engenhos e na cidade, e reforçando extensa rede de parentesco. Residiam nas mesmas ruas que a elite colonial. Viviam próximos à elite colonial, ao governador, ao bispo, muitos pertenciam a essa elite, conviviam e comportavam-se como ela. Suas moradias, vestuário e objetos denotavam isso. Os cristãos-novos residiam exatamente nas mesmas ruas onde, como disse o cronista Rocha Pita, encontravam-se as casas “nobremente edificadas” dos moradores da cidade.
Os engenhos e partidos de cana de açúcar dos cristãos-novos localivam-se ao redor da cidade do Rio de Janeiro, nas freguesias de Irajá, Jacarepaguá, São Gonçalo, São João do Meriti e Jacutinga.[31] Em São Gonçalo ficava uma das mais extensas redes de parentesco envolvendo partidistas. No engenho de Golambandé da Invocação de Nossa Senhora de Montesserate, pertencente à família Vale, um dos filhos do senhor tinha um partido de cana; também ali seu genro era dono de partido. Um médico, primo da família, mantinha ali um partido de cana. Dois irmãos, um dele cunhado do senhor do engenho, também tinham ali seus partidos. Era um dos maiores engenhos do Rio de Janeiro. Além da casa grande onde morava a família, havia quatro casas utilizadas para a fábrica do engenho, pastos para 120 bois, cavalos, canaviais e matos. Mais de 120 escravos trabalhavam a terra, e cerca de 20 serviam à família como escravos domésticos[32].
A rede de parentesco era reforçada pelo comportamento endogâmico das famílias cristãs-novas fluminenses. Isso significa que a maioria dos casamentos era realizado entre membros do próprio grupo e também entre membros da mesma família. Mais de 66% dos casamentos realizados no Rio de Janeiro entre 1670 e 1720 foram de cristãos-novos que se casaram com cristãos-novos[33].
As mulheres desses cristãos-novos também desempenharam papel ativo na construção da sociedade fluminense. Conheciam perfeitamente bem o andamento dos negócios dos maridos e pais, e frequentemente eram elas as senhoras dos engenhos e dos partidos, especialmente em caso de viuvez ou da ausência do marido – o que era costumeiro. Muitas dessas mulheres eram alfabetizadas, o que facilitava na administração dos engenhos e partidos. Ao contrário das demais mulheres da colônia – e até mesmo de Portugal – na maioria analfabetas, mais da metade das cristãs-novas do Rio de Janeiro sabiam ler e escrever. Praticamente todos os homens cristãos-novos eram alfabetizados.
Quem foram os descendentes dessas famílias cristãs-novas e qual o seu papel na sociedade atual foi o tema da pesquisa de Mestrado de Paulo Valadares[34], que procurou mostrar a origem judaica de importantes famílias brasileiras.
A ação da Inquisição em Portugal foi estudada por Benair Fernandes Ribeiro[35] . No trabalho de Mestrado Benair apresentou a vida e a obra do poeta e boticário cristão-novo Antonio Serrão de Castro, e prepara doutoramento sobre as imagens sobre a Inquisição. A inquisição espanhola está sendo estudada por Marcos Antonio Veiga, que trabalha com a Galicia.
Robson Santos prepara tese de Doutoramento sobre o anti-semitismo na Companhia de Jesus e Renata Sancovsky prepara seu doutoramento sobre o marranismo entre os judeus no período visigodo.
Para concluir, com o término da distinção entre cristãos-novos e cristãos-velhos em 1773, por ordem do Marques de Pombal, cada vez menos foi possível distinguir os marranos na sociedade ampla. Entretanto, trabalhos recentes, como o do genealogista Paulo Valadares e do antropólogo francês Nathan Wachtel[36] resgatam através da memória as origens marranas do povo brasileiro.



[*] Alguns trechos deste texto fazem parte do artigo “Um Brasil subterrâneo; Cristãos-novos no século XVIII”, de minha autoria, publicado em livro editado por Keila Grimberg História dos judeus no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005, p.137-160



[1] Ronaldo Vainfas (ed.) “Introdução” Denunciações da Bahia. São Paulo, Companhia das Letras, 1997; Eduardo d´Oliveira França e Sonia Aparecida Siqueira ª “Introdução” a “Segunda Visitação do Santo Ofício às partes do Brasil pelo inquisidor e visitador licenciado Marcos Teixeira – Livro das confissões e ratificações da Bahia” in Anais do Museu Paulista.São Paulo, tomo XVII, 1963. Sonia Aparecida Siqueira A Inquisição portuguesa e a sociedade colonial. São Paulo, Ática, 1978. Alguns autores trataram da ação inquisitorial das Visitações no Nordeste e do período holandês . Ver entre outros Arnold Wiznitzer Os judeus no Brasil colonial. São Paulo, Pioneira, 1966; Elias Lipner Os judaizantes nas capitanias de cima. São Paulo, Brasiliense, 1969; José Antonio Gonçalves de Mello Gente da Nação. Recife, Massangana, 1989.
[2] Os manuscritos do Tribunal do Santo Ofício da Inquisição de Lisboa estão arquivados em Lisboa no Arquivo Nacional da Torre do Tombo; os processos de habilitação de genere são encontrados nos arquivos das Cúrias da Igreja Católica em diversas cidades brasileiras.
[3] Ver Albert Sicroff Les Controverses dês Status de Pureté de Sang en Espagne du Xve au XVIIe siècle. Paris, Librarie Marcel Didier, 1960; Charles Amiel “La pureté de sang” in Espagne-Études Inter-Ethniques, 6, 1983. Anita Novinsky A Inquisição. 4a ed, São Paulo, Brasiliense, 1986; Maria Luiza Tucci Carneiro Preconceito racial no Brasil colônia. São Paulo, Brasiliense, 1983
[4] Anita Novinsky Inquisição - Rol dos Culpados – fontes para a história do Brasil, século XVIII. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 1992. O Rol dos Culpados – século XVII está no prelo.
[5] Anita Novinsky Inquisição – Prisioneiros do Brasil, séculos XVI- XVIII. Rio de Janeiro, Expressão e Cultura, 2002
[6] Ibidem, p.39
[7] Ver Wizniter,A op.cit; Angela M.Vieira Maia À sombra do medo. Cristãos-velhos e cristãos-novos nas capitanias do açúcar. Rio de Janeiro, Oficina Cadernos de Poesia, 1995; Elias Lipner, op.cit.
[8] Ângelo Adriano Faria de Assis Macabeas da Colônia: criptojudaismo feminino na Bahia- séc.XVI-XVII. Niterói, UFF, Doutoramento, 2004, mimeo.
[9] Prosopopéia – poema épico que relata a viagem e o naufrágio de Jerônimo de Albuquerque, publicado pela primeira vez em 1601, um ano após a morte do autor. Ver Eneida Ribeiro Bento Teixeira: o marrano que teve a prisão por recreação, a solidão por companhia e a tristeza por prazer. Relatório de Qualificação (Mestrado). São Paulo, FFLCH-USP, 2005 (mimeo)
[10] Anita Novinsky Cristãos-novos na Bahia, São Paulo, Perspectiva, 1972, p.162
[11]Yirmihahy Yovel Spinoza and other Herectics. Princenton, Princenton University Press, 1989, 2 vols. Edgar Morin Os meus demônios. Sintra, Publicações Europa América, 1994; Jean Pierre Winter.Os errantes da carne: estudos sobre a histeria masculina. Rio de Janeiro: Cia. de Freud, 2001; Antonio Damasio Looking for Spinoza – Joy, Sorrow and the Feeling Brain. New York, Hartcourt, 2003; Michel Abensur Le Paria – une figure de la Modernité. Tumultes, no 21-22, nov.2003, ed. Kimpe,2003
[12] Daniela Levy A expansão dos judeus sefaradi no novo mundo (Pernambuco, século XVII). (Mestrado em andamento)
[13] Esse período é fundamental para a história das religiosidades no período colonial período. Não é possível examiná-lo aqui devido à riqueza do tema.
[14] Ver Fernanda Lustosa “Marranismo na Paraíba: adaptação e resistência”. In Lina Gorenstein e Maria Liza Tucci Carneiro (org.) Ensaios sobre a Intolerância – Inquisição, Marranismo e Anti-semitismo. São Paulo, Humanitas/FFLXH-USP, 2002, p.141-142..Ver também da mesma autora Raizes judaicas na Paraíba colonial. São Paulo, FFLCH-USP, Mestrado, 2002 (mimeo) e Bruno Feitler, Inquisition, juifs et nouveaux-chrétiens au Brésil. Le Nordeste, XVIIe-XVIIIe siècles. Louvain, Presses Universitaires de Louvain, 2003.
[15] Ver Bruno Feitler Inquisition, juifs et nouveaux-chrétiens dans lês capitanies du nord de l´Ètat du Br´sil aux XVIIème et XVIIIème siècles. Thèse de Doctorat. Paris, Écoles dês Hautes Études em Sciences Sociales, 2002
[16] Ver Suzana Maria de Souza Santos Marranos e Inquisição (Bahia, século XVIII). São Paulo, FFLCH-USP, Mestrado, 1997 (mimeo); “Uma família cristã-nova portuguesa na Bahia setecentista” in Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro, op.cit., pp.145-174.
[17] Anita Novinsky Cristãos-novos na Bahia, op.cit., p. 176
[18] Mikve palavra hebraica que significa “reunião”. Piscina de água “viva”, acumulada da chuva ou de uma fonte, que é usada no ritual de purificação e ablução. Por exemplo, mulheres casadas usam a mikve após a menstruação, antes de recomeçarem as relações sexuais com seus maridos.Ver Alan Unterman Dicionário judaico de lendas e tradições. Trad. Paulo Geiger. Rio de Janeiro, Jorge Zahar ed., 1992, p.175
[19] Ver Claudeteane Rodrigues “Miguel de Mendonça Valladolid: um mercador cristão-novo” in Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro, op.cit.,pp.215-220
[20] “Relaxado ao braço secular” significava que o réu havia sido condenado a morte pelos Inquisidores. Como a Igreja nunca “matava”, entregava o preso ao poder secular que executava a sentença. A pena era a morte na fogueira; se antes da execução da sentença o réu dissesse que desejava morrer pela Lei de Cristo, antes de ser queimado, era garroteado. Caso contrário, era queimado “em carne”, ou seja, vivo. Marcelo Amaral Bogaciovas está preparando dissertação de Mestrado sobre os cristãos-novos de São Paulo, com o título Tribulações do Povo de Israel na São Paulo Colonial..
[21] Ver Anita Novinsky “Cristãos-novos na construção do Brasil” in Arnaldo Niskier (coord.) Contribuição dos judeus ao desenvolvimento brasileiro. Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras e Univ.Gama Filho, 1998, pp.29-40.
[22] Ver Anita Novinsky “Ser marrano em Minas Colonial” in Revista Brasileira de História. São Paulo, ANPUH/Humanitas, n.40, julho de 2001, pp.161-176.
[23] Ver Lina Gorenstein Ferreira da Silva Heréticos e Impuros – Inquisição e cristãos-novos no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro, Séc. Municipal de Cultura, Depto de Informação e Editoração, 1995.
[24] Anita Novinsky, op.cit.
[25] Ver Adalberto Gonçalves Araújo Jr Cristãos-novos e Inquisição no século do ouro em Goiás. São Paulo, FFLCH-USP, Mestrado, 1998 (mimeo) e “A biblioteca de um cristão-novo nas Minas de Goiás” in Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro, op.cit., pp.319-339
[26] C. E. Calaça Costa Fonseca Anti-Semitismo na Universidade de Coimbra: cristãos-novos do Rio de Janeiro (1600-1730). São Paulo,FFLCH, USP, Doutoramento, 2004. (mimeo)
[27] François Froger Rélation d´um Voyage fait em 1695, 1696 et 1697 aux cotes d´Afrique, detroit de Magellan, Bresil, Cayenne et Isles Antilles par une esquadre des vasseaux du Roi, commandée par M. de Gennes faite par lê Sieur Froger, Ingenieur volontaire sur le vaisseau le Faucon Anglois. Amsterdam, chez les heritiers d´Antoine Schelte, MDCXCIX, p74-75
[28] Ver Lina Gorenstein Ferreira da Silva “O sangue que lhes corre nas veias, op.cit., parte I, cap.II, pp.70-71 e Lina Gorenstein e Carlos Eduardo Calaça “Na cidade e nos Estaus: cristãos-novos do Rio de Janeiro “ in Lina Gorenstein e Maria Luiza Tucci Carneiro, op.cit.,p.100.
[29] Até o momento, as pesquisas indicam que trezentos (300) cristãos-novos moradores do Rio de Janeiro foram presos. Cristãos-novos naturais da cidade, porém moradores em outras localidades, também foram presos. Se contabilizarmos esses presos, e também aqueles que foram presos na cidade, mas não chegaram a ser processados por terem falecido antes de serem entregues ao Tribunal em Lisboa, chegamos ao número de cento e sessenta e sete (167) mulheres e cento e cinqüenta e oito (158) homens, totalizando trezentos e vinte e cinco (325) cristãos-novos naturais ou moradores no Rio de Janeiro presos entre 1703 e 1740.
[30]Ver Lina Gorenstein Ferreira da Silva Heréticos e Impuros, op.cit., cap.III
[31] Ibidem, Cap.III
[32]Ver Anita Novinsky Inquisição – Inventários de bens confiscados a cristãos-novos. Lisboa, Casa da Moeda/Liv. Camões, s.d. e Lina Gorenstein A Inquisição contra as mulheres, op.cit, parte II, cap. I.
[33] Ver Lina Gorenstein, op.cit.
[34] Paulo Valadares A presença ocuta - origem judaica de famílias brasileiras. São Paulo, FFLCH,USP, Mestrado, 2004
[35] Benair Ribeiro Um morgado de miséricas” subsídios para um Auto de um poeta marrano. FFLCH, Mestrado, 2001, mimeo. Ver também Denise Carollo A política inquisitorial na Restauração portuguesa e os cristãos-novos. FFLCH-USP, Mestrado, 1995 e Luis Nazário Autos de Fé como espetáculos de massa.São Paulo, Humanitas, 2005
[36] Paulo Valadares “A Presença Oculta, op.cit Nathan Wachtel (trabalho em andamento).

Sefarditas

Sefarditas
Fonte: A voz Marrana




Sefarditas (em hebraico ספרדים, sefardi; no plural, sefardim) é o termo usado para referir aos descendentes de Judeus originários de Portugal, Espanha, etc. A palavra tem origem na denominação hebraica para designar a Península Ibérica (Sefarad ספרד ).

Os sefarditas fugiram das perseguições que lhes foram movidas na Península Ibérica na inquisição espanhola (1478 -1834), onde eram perseguidos pela Igreja Católica, dirigindo-se a vários outros territórios. Uma grande parte fugiu para o norte de África, onde viveram durante séculos. Milhares se refugiaram no Novo Mundo, principalmente Brasil e México, onde nos dias atuais concentram milhares de descendentes dos fugitivos. Os sefarditas são divididos hoje em Ocidentais e Orientais. Os Ocidentais são os chamados judeus hispano-portugueses, enquanto os orientais são os sefardim que viveram no Império Otomano.

Com o advento do sionismo e particularmente após a crise israeli-árabe de 1967, quando as minorias judaicas nos países árabes foram alvo de ataques, muitos dos judeus vivendo em países árabes foram viver em Israel, onde formam hoje um importante segmento da população, com uma tradição cultural diferente dos outros asquenazi.

Por isso, o termo sefardita é frequentemente usado em Israel hoje para referir os Judeus oriundos do norte de África. Entretanto é um erro referir-se genericamente à todos os judeus norte-africanos e dos países árabes como sefardim. Os judeus mais antigos destes países são chamados Mizrachim (de Mizrach, o Oriente), ou seja, orientais.

Houve importantes comunidades sefarditas nos países árabes, quase sempre conflitivas com as comunidades autóctones, sobretudo no Egito, Tunísia e Síria. São judeus hispanicos que quase sempre se opõem à Qabbala sefardita e mantêm um serviço religioso bem disciplinado e de melodias suaves. O rito ocidental é conhecido como Castelhano-Português.

Os Sefarditas foram responsáveis por boa parte do desenvolvimento da Cabaláh medieval e muitos rabinos sefarditas escreveram importantes tratados judaicos que são usados até hoje em tratados e em estudos importantes.

Portugal: Cristianismo a Inquisição Cristã e os Judeus

Portugal: Cristianismo a Inquisição Cristã e os Judeus
Fonte: judeus.org


Foram necessários 500 anos para que Portugal tomasse a decisão de revogar publicamente o decreto de expulsão dos judeus, vigente quando o país vivia à sombra da Inquisição Cristã. Com a votação no Parlamento, em dezembro de 1996, abre-se um novo capítulo na história portuguesa.
Já na década de 70, porém, alguns indícios mostravam o processo de mudança no país. Em 1974, após a Revolução dos Cravos, que substituiu o regime totalitário pela democracia, foram feitas modificações nos compêndios de história, trazendo novas abordagens sobre o período da Inquisição. Em 1987, o então presidente Mário Soares apresentou ao Estado de Israel um pedido formal de desculpas, em nome do país, pelos eventos do passado. A Inquisição foi oficialmente abolida de Portugal em 1821.
Logo após a votação no Parlamento português, foi inaugurada a primeira sinagoga na cidade de Belmonte, onde durante séculos os judeus esconderam sua fé por trás da sua identidade de cristãos-novos ou marranos. Tal fato demonstra que, apesar do decreto e das perseguições, as páginas da história de Portugal, nos últimos cinco séculos, foram permeadas por costumes e tradições de origem judaica, mantidos, às escondidas, por indivíduos que geralmente sequer sabiam o seu real significado.
A Inquisição em Portugal sofreu influência direta da sua atuação na Espanha, onde, por insistência dos reis católicos espanhóis, Fernando e Isabel, o papa Sixtus IV apoiou a criação de uma Inquisição Espanhola Independente, em 1483, presidida por um Conselho e um inquisidor. Entre os mais famosos, está Tomás de Torquemada, um símbolo de crueldade, intolerância e fanatismo religioso [hoje este fanatismo se apresenta na forma de falsos judeus e do missionarismo cristão para cima dos judeus vulneráveis a pregação cristã, judeus em geral longe do seu judaísmo], que ajudou a escrever um capítulo especial do Santo Ofício na Península Ibérica e em suas colônias, cujo alvo principal foram os judeus e, em seguida, os cristãos-novos, ou os judeus convertidos à força ao cristianismo.
Passados os séculos, a instituição e seus excessos têm sido motivo de embaraço para muitos cristãos. Durante o Iluminismo, a Inquisição chegou a ser citada como um dos maiores exemplos de barbárie durante a Idade Média. Mas em sua época, despertava a simpatia de muito setores, que a consideravam um instrumento político, econômico e necessário para a defesa das crenças religiosas.
Pesquisas históricas indicam que a presença judaica em Portugal remonta ao século VI antes da era comum, sendo anterior à formação do reino de Portugal. No século XII, sob o comando de Afonso Henriques, Portugal torna-se uma nação e surgem as primeiras comunidades judaicas em Lisboa, Oporto (atual Porto), Santarém e Beja.
Durante o reinado de Afonso Henriques, os judeus vivem momentos de tranqüilidade e prosperidade, possuindo também um sistema comunitário autônomo no qual o grão-rabino era indicado pelo rei. Neste período, o grão-rabino Yahia Ben Yahia foi escolhido ministro das Finanças, sendo também responsável pela coleta de impostos no reino. A tradição implantada por Afonso Henriques, de escolher judeus para a área financeira e de manter um bom relacionamento com as comunidades judaicas, é seguida por seus sucessores.
No entanto, para os judeus, a era de prosperidade e de participação na vida política e econômica do reino termina no início do século XV, com o aparecimento de um anti-judaísmo local e com a influência cada vez maior da Inquisição Cristã espanhola. Por trás da deterioração da situação das comunidades judaicas estão as pressões da Igreja Cristã, o surgimento da burguesia e, por último, a aliança da Espanha com Portugal, fortalecida através do casamento de Manuel I com Isabel, filha dos reis católicos Fernando e Isabel. Como na Espanha, a prosperidade dos judeus despertou a inveja dos seus vizinhos, impondo-lhes, entre outras punições, maiores impostos.
Para a Igreja, a conversão dos judeus e o fim do judaísmo são as únicas maneiras de afirmar definitivamente a identidade messiânica de Jesus. Para a burguesia, o fim dos judeus significa a possibilidade de conquistar uma posição privilegiada na vida econômica da nação. Para os reis católicos, representa a extensão da Inquisição espanhola em solo português, perseguindo aqueles que conseguiram fugir do decreto de 1492, que determinou a expulsão de todos os judeus da Espanha.
Durante o reinado do cristão rei João, pela primeira vez os judeus são obrigados a usar em suas roupas símbolos que indicam sua crença religiosa. [Percebam, Hitler não foi o primeiro cristão com esta idéia "ilustre"]. Em 1435, sob o comando de Afonso V, o Rabino Isaac Abravanel, judeu, médico, talmudista e filósofo desempenha as funções de conselheiro e tesoureiro do rei. Ao mesmo tempo, é criada uma lei que proíbe os judeus de terem empregados cristãos.
A 30 de maio de 1492 é assinado o decreto que expulsa os judeus da Espanha, levando cerca de 80 mil a buscarem abrigo em Portugal, apesar das medidas restritivas que vêm sendo adotadas no país. Mesmo com a perseguição, Portugal ainda se apresenta como uma alternativa de salvação para os judeus.
Para acolhê-los, o rei João II exige o pagamento de uma taxa que lhes permite ficar no país apenas oito meses, prometendo-lhes que, ao final desse período, poderão partir em navios cedidos pelo governo. Além de não cumprir a promessa, são vendidos como escravos para a nobreza portuguesa. Neste mesmo período, cerca de 700 crianças judias foram separadas de suas famílias e enviadas para colonizar a ilha africana de St. Thomas, onde a maioria morreu.
O próximo passo dessa tendência de perseguição é dado a 5 de dezembro de 1496, quando Manuel I, sucessor de João II, e às vésperas do casamento com Isabel da Espanha, assina o decreto que prevê, em dez meses, a expulsão dos judeus de Portugal. A única alternativa para evitá-la seria a conversão ao cristianismo.
A maioria dos judeus, que fugira da Espanha justamente para evitar a conversão [ao cristianismo], decide então, sair de Portugal. O rei, no entanto, diante da possibilidade de evasão do capital financeiro do país, juntamente com a população judaica, publica um novo decreto, que proíbe a partida de Portugal e força os judeus a se converterem.
Segundo o relato de Cecil Roth, em seu livro "Uma História dos Marranos", crianças foram arrancadas do colo de seus pais e entregues a famílias cristãs, para viverem em locais muito distantes de seus familiares. Para alguns judeus era preferível a morte do que o batismo dos filhos [no cristianismo].
Diante desses medidas, não restaram muitas opções aos judeus portugueses. Enquanto uma parcela das comunidades judaicas locais aceita seu destino e assume totalmente sua nova religião, outra segue os novos preceitos apenas aparentemente, mantendo secretamente seus rituais e tradições. São justamente os descendentes dessas gerações que hoje, 500 anos após o decreto de expulsão e a conversão forçada, começam gradativamente a buscar e a assumir sua herança judaica [em Portugal].
*Artigo publicado originalmente na Revista Morashá, reproduzido com autorização.